AGORA TAMBEM TEXTOS SEM ACENTUACAO E SEM PONTUACAO

SOU O QUE SEREI

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

A ÚLTIMA REVOLUÇÃO RICOCHETE


120 anos. Nunca imaginei chegar tão longe. E lúcido. E saudável. E bebendo como se não houvesse amanhã. Aos 20, achava que não chegaria aos 30, morreria antes de coma alcoólico. Aos 30, bebia pra aproveitar, estava crente que já havia estragado o corpo e que certamente não chegaria aos 40. Aos 50, simplesmente parei de pensar nisso, o dia que tivesse que ser seria, vou apenas encher a cara. E assim continuei bebendo até chegar aos 120. Experiente? Sábio? Que nada, sigo o mesmo inútil fracassado dos meus 20 anos. Entre um gole e outro, dedico o tempo a outra paixão, os livros. Nunca tive uma ID durante toda a juventude. Fiz uma apenas para poder pegar livros emprestados na Biblioteca Central. Otacildo acha graça dos meus livros, “esses bichos pesados estranhos”. Prefiro os livros tradicionais, não consigo simpatizar com esses allbooks. Estou relendo “O Velho e o Mar”, um clássico da literatura da Era Anterior. O velho em questão se perguntava por que os velhos acordavam sempre cedo. Para aproveitar mais o dia? Enquanto os jovens acordam tarde e indispostos. De fato, quando jovens, acreditamos que temos ainda incontáveis dias por vir. Já velhos, tomamos ciência de que o tempo está acabando. Nenhuma manhã pode ser perdida, nada deve ser deixado pra amanhã. Quando Otacildo acorda, já estou imerso em algum livro. E bebendo. Como a ração da manhã e parto pros livros e pra bebida. Otacildo reclama que eu deveria aproveitar o tempo que me resta, que não estou tão velho, que tenho saúde. E vai pro transe. Otacildo vive na NeuroNet. Presumo que seja o que ele considera aproveitar o tempo. Nunca aceitei esse troço. Estou bem comigo mesmo. Houve um tempo em que sentia falta dos outros. Não mais. Dizem que eu não preciso continuar no Beco, que agora todos têm direito a uma casa e quantos clones quiser. Quantos clones quiser, vejam isso! Não quero. Não quero uma casa. Nunca quis. Outro dia um Assistente de Rua ficou mais de três horas conversando comigo. Até sentou no chão pra parecer amigável. Eu só queria vomitar na cara dele. Otacildo jura que não é um clone. Se não é um clone é o que então? Um androide? Ele é muito engraçado. Não sei se inocente ou dissimulado. 

Rolifildo, Aino e Dandaro interrompem minha leitura:
Tamos indo fazer uma sabotagem na Usina da 36C. Quer ir?
Não, valeu.
Porra, tu parou mesmo no tempo. Nunca mais vandalizou com a gente. Não é mais da rua, agora vive no mundo da lua.
Deixa ele, vambora.

No mundo da lua. Expressão antiga. O luar me disseca. A lua parece um sol. Calor dos infernos. 

Na semana passada o Catarino foi extinto. Mesmo assim a turma continua roubando e vandalizando. Catarino era um dos poucos que se interessavam pelos meus livros. Ele gostava de criar, montava ficções e crônicas. Tinha talento. Acho que poderia ser um grande escritor. No ano de 1849 do Antigo Calendário, Dostoievski foi condenado à morte, com apenas 28 anos. Entretanto, no derradeiro minuto, teve a pena comutada para 4 anos de trabalhos forçados. Imagine se morto. Nunca teria escrito a maioria de sua obra, incluindo “Crime e Castigo”. Coisas pra se pensar. Otacildo diz que penso demais.

Aprendi meditação extrema há muitos anos, com um mestre iogue que decidiu perambular sem destino pelas ruas do mundo. Me dedico a ela várias vezes ao dia. Alguns minutos de completo desligamento da superficialidade. É uma limpeza da mente. Enxugamento do espírito. Revitalização energética. Foi muito útil no período em que estava preso e torturado diariamente. Na meditação extrema você consegue observar os efeitos da dor de forma distanciada, e não como algo que toma conta de sua identidade. O mestre me relatou que se eu dominasse aquelas técnicas, eu teria a capacidade de retardar os efeitos do envelhecimento sobre a anatomia cerebral. Confesso que, durante muito tempo, nunca me importei muito com os valores dele. Hoje, cada cerveja que abro dedico ao mestre.

Os Assistentes de Rua tentam de toda forma me convencer a reimplantar o monitor de saúde. Dizem que estou desamparado, brincam que não sou mais um garoto. Só tive esse troço obrigado, na prisão. Agradeço a ajuda, mas estou bem como estou. Já bastam essas roupas fotocinético-voltaicas. Não quero mais nenhuma merda tecnológica em mim. 

Mas, ao contrário do que possa parecer, não sou um nostálgico que vive amarrado a estilos ou pensamentos do passado. Gosto de variar minhas leituras entre clássicos e contemporâneos, tradicionais e inovadores. Tenho lido vários livros sobre a teoria do universo em ricochete. Concordo plenamente com essa tese. Aliás, acho que a teoria do ricochete vale para tudo. Não existe um início e um fim. Apenas transformação e ciclos. Assim é a história da humanidade. Progressos e Regressos. Crescimento e Recessão. Prosperidade e Crise. Inflação e Deflação. Guerra e Paz. Fome e Saciedade. Alimento e Adubo. Necessidade e Alívio. E vice-versa. Sempre nessa ida e vinda. As pessoas morrem enquanto outras estão parindo, continuando o ciclo. Vida, Não-Vida, Vida… Dia e Noite. Supernovas e Buracos Negros. Futuro e Passado.  Lá e Cá. O futuro nada mais é do que um novo passado. Toda a existência é apenas a mesma energia que se transforma. Que preenche e esvazia os espaços continuamente. Em dado momento, a expansão desse universo que habitamos e percebemos cessará e teremos uma nova contração. Implosão e Explosão. Explosão e Implosão. 

De repente, muita gente passa correndo pela encruzilhada. Gritaria. Confusão. Ebenezer entra eufórico no Beco.

Que está havendo?
Começou a revolução. 
Outra?
Vem. Vamos.

Rapidamente, Ebenezer corre até a caixa de isopor e enche de gelo e cerveja. Ebenezer adora essas manifestações revolucionárias. Vende muita cerveja. 

Sigo a multidão. Todos correndo alucinados. Caminho lentamente. Teve um tempo em que eu corria também. 

Finalmente chego ao comício. Um jovem num palanque. A plateia está entusiasmada, acho que o agitador está realmente ali, não parece holograma. Grita que a Revolução Istafista finalmente começou. Com o Istafismo tudo será diferente. Será o governo de todos. Para todos. 
Continuo ouvindo por um tempo. 
Retorno lentamente. 
Faço um exercício. Pisar exatamente onde pisei no percurso de ida. Será que consigo? Demais para minha memória. 
Estou de volta ao Beco.
De volta aos livros. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário