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23 março

A PEREGRINAÇAO DO SERVO DE ISHTAR - Parte III





Finalmente chego ao Butão, entre as esquecidas fendas himalaias. Cannabis aqui é mato. Negócios à vista. Consumo proibido. Procuro traficantes. “Somos poucos, não faz parte da nossa cultura, pouca gente compra”. Um terreno. Faço minha plantação. Apenas mercado interno não vai prosperar. Mas vivemos num mundo globalizado, não é mesmo? Quem não vai desejar experimentar a legitima maconha butanesa? Associo com importadores chineses na fronteira. Agora sim, felicidade geral na nação. E as garotas? Onde estão as garotas? Não andam nas ruas sem um homem ao lado. E sempre encobertas pela broxante Khira. Tudo bem, sempre há o subterrâneo. E foi lá que conheci a garota do piercing. Que ousadia, fazer um piercing no Butão. O amor reprimido. Inesquecível, mágico. Por um momento achei que poderia fincar raízes naquela terra. Mas nunca é assim. A garota do piercing não é minha, é do mafioso chinês. “Os malditos chineses querem nos dominar. Essas porcarias industriais que eles trazem estão por toda parte”. Os butaneses se orgulham de nunca terem sido colonizados ou conquistados. “Resistimos aos imperialistas. Sempre vamos manter as tradições.” Percebo que não faço parte da tradição. Desfaço o negócio, desfaço o amor. E agora? Pra onde? Afinal, qual caminho desejo realmente seguir?  “Você deve subir aquela trilha. A mais alta montanha de Bumthang. Três mil metros até o Monastério de Guolishan. Ali encontrará a redenção”. Imediatamente me atrevo pela rota sinuosa, sem montaria, sem mochila, sem equipamento, sem água, sem pão, apenas a roupa que por acaso cobria meu corpo. Três dias de caminhada. Trechos estreitos e traiçoeiros. Só penso no topo. Não sinto sede, não sinto fome, não sinto remorso, não sinto medo. Nunca soube me explicar e não é agora que vou tentar. Majestosamente, enfim, a última curva se esvai. Toda a suntuosidade do templo se ergue a minha frente. Encaro os maciços portões de bronze. Nunca estive aqui, mas é tão familiar, como se sempre tivesse sido meu lar. Será aqui o meu destino, tão almejado, até então tão desconhecido e distante? Vinda de lá dentro, uma voz parece me chamar. Olho para a pesada porta, que parece se mover em minha direção. É ouro que a reveste? São diamantes que a ornamenta? Olho para os vales e as montanhas que devoram a paisagem além do templo. Olho para as nuvens cinzentas que pairam sobre mim, fiéis companheiras. Não posso mais fugir do meu destino. Dou meia volta e desço pela trilha serpenteante.



Veja também:

27 janeiro

A PEREGRINAÇÃO II


A PEREGRINAÇÃO DO SERVO DE ISHTAR

Parte II






Grandioso, mágico, místico
Um abalo em minha tétrica cordilheira de ceticismo
Transgressão, redenção e salvação
Porque
Roubei as jóias de Jowo
Pedi perdão a Avalokitesvara
E agora abandono meu corpo em sacrifício a Maitreya.
Minha esposa dominicana dissimula com o lama, em inglês.
Eles vão, eu fico.
E ainda estou por aqui
Em toda parte
No floco inerte de neve no cume da montanha
Na raiz que penetra infame o solo mais arredio
No assobio da brisa que jamais se cala.
O tibete segue.


 Termo relacionado: A peregrinação do servo de Ishtar - Parte I - http://partesforadotodo.blogspot.com/2010/09/peregrinacao-do-servo-de-ishtar.html

23 setembro

A PEREGRINAÇÃO DO SERVO DE ISHTAR

Parte I



Entre uma pedra de ópio e outra, minha namorada revelou estar grávida. Continuei rindo. No dia seguinte desapareci. Jurado de morte em três províncias só me restou ir para Secunderab. Rhana, ex-amante, é agora dona de um prostíbulo, não vai me recusar pousada. A Índia não tem o mesmo sabor da Tailândia, mas aqui ao menos não corro risco de ser açoitado em praça pública (por enquanto). Vou logo perguntando pelas pompoaristas. Não tem? Pra que me serve essa porra de lugar então? Tento não olhar pra seus olhos, pérolas negras sobre mantos alvos de seda, mas não consigo. Não acredito que amo essa mulher. Convido Rhana para irmos embora, juntos. Vamos para o tibete. A colina mais distante e deserta, vamos fundar nossa própria civilização. Ela aceita. Mas no dia seguinte desapareço, sozinho uma vez mais.