AGORA TAMBEM TEXTOS SEM ACENTUACAO E SEM PONTUACAO

SOU O QUE SEREI

26 fevereiro

AAAHHrte !!! 23

 

AAAHHrte !!!
23



Nesta edição, iniciamos com um conto ilustrado pelo Marcelo Dola, de quem
também é a arte da capa. Este conto, aliás, teve uma construção inusitada.
Geralmente, em um conto ilustrado, é primeiro escrito o texto para então o
desenhista criar as artes. Mas nesse, eu e Dola fizemos o inverso. Primeiro, ele
bolou as ilustrações, e a partir delas, escrevi o texto. Seria então na verdade
ilustrações textificadas? Desenhos contificados? Bom, só sabemos que ficou uma
produção bem louca, como não poderia deixar de ser, tratando de uma junção de
dois loucos.
A seguir, uma resenha do livro CAVIDADE, obra póstuma de Alexandre Mendes.
Volto a ressaltar nesse espaço essa justa valorização da obra do Alexandre, que
pode ser adquirida com a Editora Merda Na Mão ou comigo mesmo. Tenho
exemplares disponíveis e aceito sempre a boa e velha TROCA por qualquer
produção criativa.
Depois, temos mais colaborações e aquela galeria de zines e acontecimentos
interessantes encontrados por aí.

 

AAAHHrte 23 pode ser baixado ou lido nos canais da Editora Merda Na Mão:

https://editoramerdanamao.blogspot.com/2021/02/aaahhrte-23-disponivel.html

 
As edições do AAAHHrte podem também ser vistas/baixadas através da ZINETECA
DIGITAL COLABORATIVA
(https://drive.google.com/folderview?id=1VOSRYuN_id71RG9ks00clzH9nSTGxyGE
)
ou pedidas no nyhyw@yahoo.com.br

 

 

 

 

 

 

 

16 fevereiro

Deus no banco dos réus IV


DEUS NO BANCO DOS RÉUS DO TRIBUNAL DA NOVA INQUISIÇÃO



IV



-Você puniu os egípcios por escravizarem os filhos de Israel.

-Sim.

-Mas até então a escravidão era prática habitual no mundo inteiro. Anteriormente, os próprios hebreus tiveram escravos. E continuaram tendo depois. Mas você não puniu mais ninguém por isso além dos egípcios.

-Os egípcios não fizeram minha vontade.

-Ah, sim, você jogou dez pragas sobre o Egito porque o Faraó não queria deixar os israelitas partirem.

-Foi necessário.

-Necessário? Ora, mas não é verdade que você disse a Moisés para pedir a Faraó que os deixassem ir, mas que você iria endurecer o coração de Faraó para que ele não permitisse?

-Sim.

-E a cada recusa de Faraó você despejava uma praga sobre o Egito.

-Sim.

-Mas era você que endurecia o coração de Faraó para que ele não concedesse a liberdade ao povo de Moisés.

-Bem... sim.

-Ou seja, você manipulou Faraó e Moisés apenas para extravasar seus desejos sádicos. E assim, você devastou aquela terra com rios que viraram sangue, matando inúmeros peixes. Peste sobre o rebanho, sobre cavalos, gado, ovelhas, jumentos, camelos, matando todos os pobres animais. Úlceras nas pessoas e animais de todo o Egito. Chuva de pedras, que destruiu tudo que havia no campo, pessoas, animais, plantas, árvores. Nuvens de gafanhotos, que devoraram tudo que havia restado da chuva de pedras. E culminou com uma praga que matou todos os primogênitos de todas as famílias egípcias, até mesmo o primogênito das sofridas escravas que moem a farinha, até mesmo o primogênito dos animais. Aquelas pragas mataram incontáveis pessoas e animais inocentes e destruíram o meio ambiente de forma incalculável. Quantas crianças inocentes morreram para atender sua sede genocida?

-Protesto, meritíssimo.

-Sem mais perguntas.

-Faremos um intervalo. Estão dispensados.





anteriores:



Deus no banco dos réus I


DEUS NO BANCO DOS RÉUS DO TRIBUNAL DA NOVA INQUISIÇÃO


I


Você disse "Haja luz", e houve luz, correto?

Correto.

Você viu que luz era boa.

Sim.

Se luz é boa e trevas ruim, por que permitiu a noite? Por que não criou a luz de forma intermitente, eterna?

Eu... não sei.

Você não sabe.




Deus no banco dos réus II


Deus no banco dos réus do Tribunal da Nova Inquisição


II


-Você culpou a serpente por ter enganado a mulher. Mas você criou todos os animais da Terra, correto?


-Sim, correto.


-Então você criou a serpente, não criou?


-Sim. Eu a criei.


[murmúrios de assombro].


-Ordem no tribunal.




Deus no banco dos réus III



DEUS NO BANCO DOS RÉUS DO TRIBUNAL DA NOVA INQUISIÇÃO


III


-Você condenou Caim por ter matado seu irmão Abel, certo?


-Sim.


-Você viu Caim matar Abel?


-Bem... não.


-Você viu o corpo de Abel?


-Não.


-Quando procurava Abel, você perguntou sobre seu paradeiro a Caim, correto?


-Isso mesmo.


-E o que ele respondeu?


-Que não sabia.


-E você simplesmente concluiu que ele matou seu irmão, sem nenhuma prova.


-Sim... mas... é claro que ele o matou.


-Isso é o que você diz. É a sua palavra contra a dele. Mas Caim foi sumariamente condenado, sem direito a defesa.


[silêncio].



14 fevereiro

Salvou


Achou estranho, o filho passara a carregar a bíblia pra todo lado.


-Meu filho, você está lendo a bíblia?


-É que meu próximo projeto vai ser uma sátira dos textos bíblicos em quadrinhos escatológicos.


-Ah, bom!


07 fevereiro

Venha


Olha pulso

Não tem mais relógio
Abre geladeira

Abarrotada de cervejas, todas com validade pra mais de ano

Ótimo, não precisa de mais nada

Que venha o apocalipse.


31 janeiro

Abatedouro

 Abatedouro


Levanta a saia do uniforme escolar. É isso que você quer?, indaga. O velho rasteja de quatro em sua direção, sedento. Quando se aproxima, um chute certeiro e violento na boca. Sonoras gargalhadas enquanto deixa o quarto. E veste uma roupa, senão conto pra mamãe que você está andando pelado pela casa. O velho levanta-se dolorosamente e se recolhe em sua cama, num turbilhão de sensações entre a humilhação e o êxtase.


30 janeiro

Disponível: CAVIDADE, livro de ALEXANDRE MENDES

 

CAVIDADE, livro de ALEXANDRE MENDES



Alexandre Mendes era um inconformado. Esse inconformismo já pode ser sentido de cara no contundente texto "MÍNIMO" que abre este livro:


"Lambe logo o meu chão,

Meu escravo; desgraçado

Deixa tudo bem limpinho,

porque eu pago seu salário"


Aqui temos bem nítida a crítica sobre as relações trabalhistas costumeiras: é a escravidão moderna, a escravidão assalariada. Esse tema é um dos mais presentes na obra de Alexandre, retratado de forma visceral ou com inspirado sarcasmo em textos como "AO PATRÃO, COM CARINHO" , "SALÁRIO", "A FICÇÃO IMITA A REALIDADE", "COLISÃO DE MENTES" ou "BRÊIQUI DE RULLIS".


"As instruções do seu patrão:

. Senta aqui e escuta meu sermão do dia.

. Sorria sempre para as tarefas de adulto que lhe obrigamos a executar.

. Conforme-se com o salário de criança que nós lhe pagamos."

[BRÊIQUI DE RULLIS]


A escravidão histórica colonial também é tema de textos como "ACASO". Alexandre mostra que a escravidão continua, os escravos modernos seguem apanhando, seja do patrão, seja da polícia, seja da máquina produtiva que não pode parar, seja da indiferença.


"lá jazia o defunto

-Era só um vagabundo!

rabecão já vai chegar"

[UM CARA]


O cotidiano da periferia, ou daquelas pessoas marginalizadas e sabotadas pelos detentores do poder, são assuntos frequentes. Como em "COCÔTIDIANO", cujo título já diz tudo. Ou em "NO LIMITE", "TROPA DE ELITE", "PERDI O SONO", "CÁLICE", "BAR DA ESQUINA", "A QUEDA", "MEIA HORA", entre outros.


"lá falta concreto

esgoto e dente"

[SEU MANEL]


"Estamos com medo. Espero que encontrem logo o corpo."

[TIVE MEDO ESSA NOITE]


Em "O CRIME ESTÁ VENCENDO?", evidencia que a divisão da sociedade em vencedores e perdedores é uma grande falácia. Até mesmo a situação da polícia, soldados e demais guardiões da pátria e da ordem, é vista com crítica, mas também com humanidade, reconhecendo a perversa e famigerada estratégia de dominação de dividir e conquistar, colocando sabotado contra sabotado.


"Anteontem era zagueiro

Ontem, era mau sujeito

E hoje, apenas estatística"

[CONDECORAÇÃO DE HONRA]


"A polícia é mau paga e às vezes desconta suas frustrações na gente. Tudo que eles querem é ouvir "sim, senhor" e "não, senhor"."

[RECOMENDAÇÕES DE UM MACACO VELHO]


As temáticas na obra de Alexandre são grandes, passando por relações familiares, que nem sempre são exemplares ou amorosas, como a conturbada relação entre pai e filho vista em DI PEDRA e PAPAI;


"Não sobrou nada,

caro estranho, nada,

nada pra você"

[DI PEDRA]


 e as relações com a natureza e o mundo animal, retratadas sempre com empatia.


"(Adeus, breve nos veremos!)"

[UMA VIDA (QUASE) SEM VIDA]


"Homens por cima

Animais por baixo

Mas não tentem provocá-los

dentro de seu próprio espaço"

[ANIMAL PLANET]


Fruto de uma visão de mundo ampliada de alguém que foi camelô, cobrador de ônibus, professor de história, entre outras funções, além de vivenciar a realidade de comunidades periféricas. Alguém que, não apenas estudava o mundo, mas o observava de perto, em sua múltiplas facetas, com respeito e humildade. E, apesar do olhar crítico, conseguia interagir com uma contagiante simpatia e bom humor, características também marcantes em sua obra.


"Entrou no coletivo; deu um arroto e pulou a roleta: Levou um esporro do cobrador. Puxou 50 pratas do bolso e pagou a passagem, dizendo ao funcionário que ficasse com o troco. - Hoje, vamos quebrar a rotina!"

[BRÊIQUI DE RULLIS]


"Assinval despejara todos os seus herdeiros sobre o bife do bundão da mesa dez."

[O TROCO DA GORJETA]


O mundo, as pessoas, a natureza, e as interrelações disso tudo em nossa confusa sociedade é retratado com admirável empatia e criatividade, como em "GLÓRIA", "BELO BELA VISTA" ou "TERRA".

O inconformismo reverbera como uma revolta criativa e construtiva.


"Ergueu a mão esquerda para o alto, tentando alcançar as estrelas, no ápice do esforço físico. "Eu sou a natureza!"-Gritou."

[TERRA]


As reflexões se estendem sobre os sentidos da vida e da morte, conflitos existenciais, o ser e o não ser, a verdade e o vazio. Reflexões estas que podem não apenas desconstruir o saber absoluto, como também a própria linguagem formal ou até a poética convencional. Temos assim "LINDO'', um subversivo poema cíclico de 11 páginas. Temos também "IRMÃOS METRALHA", em que a crítica social vem junto à subversão das famigeradas conjugações verbais, tão entubadas nos alunos por anos e anos no ensino convencional das escolas. "A REVOLTA DAS PALAVRAS'' é outro exemplo de subversão linguística, de forma bem humorada. A contundência, tanto da ideia, como do linguajar poético, pode ser sentida em "SEU MANEL".


"O sábio que soube demais

geme e chora

tentando voltar atrás

descobrindo que a verdade aprisiona

dentro da sua verdade

que os outros sábios chamam de nada"

[SEM AÇÚCAR]


"universo paralelo

FAÇA-SE PRESENTE"

[FÉ]


"Vê como é o destino?

Um dia é otimismo

crença em contos

verdade mau contada

outrora é escuro abismo,

e o fim da linha revela o nada."

[GG ALLIN]


"Pra que o pra quê

de tudo isso?

Não sei… Quando eu comecei a tentar entender, já era desse jeito…"

[?]


"eu sei quem é você

então, por favor, me ajude

e me diga, afinal de contas:

quem sou eu?"

[??]


Estas reflexões são tão fortes na obra de Alexandre que ele até criou o filósofo Nihildamus.


Obra que, afinal, era também vasta como seu coração.


"(A minha cara é bem feia, mas o meu coração é do tamanho de um planeta!)"

[AH!]


Este livro traz poesia e prosa, mas Alexandre também fez ilustrações, quadrinhos, zines, e colaborações em projetos diversos, material que ainda há de render outras coletâneas.


Alexandre foi um artista que nos deixou antes do que deveria ser, mas seu legado permanecerá.













CAVIDADE é um lançamento da Editora Merda Na Mão.


Quem interessar, pode adquirir direto com a Editora, editoramerdanamao@gmail.com , ou comigo mesmo, também tenho exemplares disponíveis, e aceito sempre a boa e velha TROCA por qualquer produção criativa: wnyhyw@gmail.com .