AGORA TAMBEM TEXTOS SEM ACENTUACAO E SEM PONTUACAO

SOU O QUE SEREI

28 abril

IDA

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Vladimir Kush



Passa horas na biblioteca, folheia incontáveis livros. Anda a esmo, olha as movimentadas vitrines do hipercentro. Caminha no parque. De volta ao carro, passeia por intermináveis avenidas. Sorri ao entrar em um engarrafamento. Aos poucos, a luz natural desaparece. Lojas e prédios cerram suas portas. A angústia irrompe em suas veias. Vai para o shopping, que só fecha às dez. Logo são dez horas. E agora? Um hospital. Entra timidamente e senta na sala de espera, como se aguardasse atendimento. Ali fica um bom tempo, sem fazer nada, sem prestar atenção em nada. Exceto no segurança. Que olha desconfiado em sua direção.  Melhor partir. Volta pro carro. Olha para o relógio. Dirige sem direção. Um hipermercado 24 horas. Maravilha. O lugar é enorme, vários corredores, percorre todos eles. Pára de frente aos congelados. A gostosa brisa gelada do freezer. Um funcionário se aproxima: precisa de ajuda? Não, estou só dando uma olhada. E continua ali, imóvel. Seu olhar na direção dos iogurtes, mas não os vê. Sua mente está longe, perdida no limbo. Não sabe mais pra onde ir. Só tem uma certeza: não irá voltar.

26 abril

AMOR NO PRESENTE DO INDICATIVO



- você me ama?
- o quê?
- perguntei se você me ama.
- porque pergunta isso agora, depois de todo esse tempo que estamos juntos?
- você nunca disse que ama.
- você também não.
Olhares. Profundos olhares. Um toque suave em seus cabelos, na pele de seu rosto. Um beijo. Se amam. Por toda aquela noite.

25 abril

Sessão da tarde

Pra começar bem uma melancólica semana pós-feriadão, nada como um pouco de psicodelia e brutalidade pra relaxar. Iniciando nossa seção musical do dia, temos a beleza e imponência do JEFFERSON AIRPLANE. Depois, hora de bater cabeça com os alemães do SODOM ao vivo, apavorando os tailandeses. E, pra fechar, vamos todos botar o almoço pra fora com a sanguinolência visceral do IMPETIGO.

 Jefferson Airplane - White Rabbit

Sodom - Among The Weirdcong

Impetigo - Breakfeast At The Manchester Morgue

19 abril

VADE RETRO, CLÁSSICO

(Por: Fenilisipropilamina Man)


(imagem por Margot Dukker)



Minh`alma...
Minh`alma
Minh`alma, onde estás?
Ah, sim, emprestada ao Santo dos Desesperados. Tentei vender ao Diabo, mas o velho fracassado não tinha muito o que oferecer.

15 abril

A PEREGRINAÇAO DO SERVO DE ISHTAR - Parte IV

Imagem por Katarzyna Widmanska


“Não conheço nenhuma Ylljana. Comprei a casa de um casal idoso que queria um lugar menor depois que os filhos se casaram. Não, não sei pra onde eles se mudaram, nem tenho nenhum telefone deles”.
A única mulher que realmente amei. O país ainda se chamava Iugoslávia. Terra das caucasianas mais belas do planeta. Entre as belas, ela era belíssima. Entre as belíssimas, ela era o Sol.
Cheguei a esta conclusão após 3 meses de total reclusão em Istambul.
Ylljana. A única por quem voltei.
Percorri os Bálcãs por completo. Toda a Europa Oriental. Nenhum sinal.
Ela é como eu. Sem destino.
Incerta.
Estaria ela também me procurando?
Ou, talvez, cansada, tenha constituído abrigo.
Estaria ela agora na janela?
Observando?
Esperando?
Me esperando?
Não seja ingênuo, seu tolo, certamente ela seguiu seu caminho.
Me esqueceu.
Aprendeu comigo.
Talvez seja melhor assim.
Não encontrá-la.
Sem desilusões. Apenas recordações.
E a fantasia de que poderia ter dado certo.


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07 abril

JANELA PODEROSA 07


O zine JANELA PODEROSA apresenta uma proposta bem interessante: cada edição é dedicada a um único tema. O editor RIC RAMOS faz uma boa pesquisa sobre o assunto e publica diversas particularidades relacionadas. O tema da edição 07 é o underground. Para mostrar o que é o underground, temos breves textos explicativos em formato HQ e entrevistas / máterias com a produtora de filmes trash Pepa Filmes, a produtora musical Metal A.D.I.D.A.S, e a banda Attar. O formato do zine é simples, uma folha A4 dobrada duas vezes, mas o visual é bem chamativo e criativo, todos os textos possuem carismáticas ilustrações. Zine de leitura rápida, mas sempre com boas dicas e singularidades do assunto escolhido.
Contato: http://janelapoderosa.110mb.com/ ; janelapoderosa@gmail.com

05 abril

O horror e o fantástico em webzines

Os apreciadores dos gêneros terror, fantástico e literatura soturna não podem reclamar. Diversos ótimos webzines estão circulando net afora. Logo abaixo uma amostra:


A equipe da Ravens House Brasil há vários anos apresenta uma produção intensa e de qualidade. O Fun House Extreme é o principal cartão de visita dessa turma e já está em sua 19ª edição. O destaque desse número é uma detalhada matéria sobre o Flying Spaghetti Monsterism, ou Pastafarianismo, a macarrônica religião criada por Bobby Henderson que foge da mesmice das crendices habituais. O zine traz também uma resenha do que foi a Mostra Espantomania 2010, realizada em São Paulo; artigo sobre o perigoso vídeo Mereana Mordegard Glesgorv; divulgação de bandas, sites e eventos; notícias do cenário de arte extrema. Publicação apenas essencial para os apreciadores de horror.




O Flores do Lado de Cima é outra obra da Ravens House, esta capitaneada pela R. Raven e mais voltada para a literatura e música. O nº 16 apresenta entrevista com Azriel, do fanzine Funeral of Tears; matérias sobre a poesia de Florbela Espanca e os impressionantes bonecos de Ron Mueck; contos, poemas; divulgação de bandas, livros e sites; um interessante artigo sobre o Tarô dos Vampiros. O diferencial das produções da Ravens House é sempre trazerem ao seu público matérias sobre artistas diferenciados, ousados e criativos, cuja obra vale a pena dar uma espiada. O exemplo desta edição é a obra de Ron Mueck. Folhear as páginas dessas revistas digitais é certeza de se deparar com ótimas dicas da arte extrema underground atual. Este nº do Flores ainda vem com o álbum em MP3 Cadauveribus Cantationem.




O Terrorzine é fruto de uma ótima idéia: uma publicação com mini-contos de terror. Escrever um conto de horror realmente bom, que fuja dos clichês batidos do gênero e seja bem construído e impactante, não é tarefa fácil. E escrever um mini-conto, então, é um verdadeiro desafio. A cada edição do Terrorzine muitos autores encaram esse desafio e o resultado, como é de se esperar, é irregular. Alguns pecam pela preocupação excessiva com o rebuscamento do texto sem apresentar nada de novo, outros têm boas idéias mas não conseguem desenvolvê-las de maneira satisfatória em um texto curto. Mas alguns conseguem em poucas palavras causar grande impacto com contos criativos e bem resolvidos. Neste número 23 vale conferir Sem Vida... Sem Morte! , de Almir Pascale; Avis Rara, de Miguel Carqueija; Nada de Anormal, de Vagner Tadeu Firmino. Esta edição traz também entrevistas com Fabian Balbinot e Moacyr Scliar, em homenagem ao escritor falecido no início de 2011; interessante e prático artigo de Laura Elias sobre os atos de escrever e publicar; dicas de livros e sites. É muito bom uma publicação interessante como o Terrorzine estar conseguindo manter a regularidade. Esperemos que perdure ainda por muito tempo.




O Juvenatrix dispensa maiores apresentações e chega a sua incrível 126ª edição. É obra obrigatória para os fãs de arte extrema. Este número segue o padrão costumeiro de qualidade, com destaque para as resenhas comentadas de todos os episódios da série A casa do terror, da produtora Hammer. Uma marca do Juvenatrix é sempre apresentar listagens interessantes de filmes de terror, e a da vez é uma lista dos filmes fantásticos lançados nos cinemas brasileiros de 2010. Temos ainda notícias do mundo Metal; divulgação de livros, revistas, filmes, fanzines, eventos e sites; contos; artigos.

Peça através de renatorosatti@yahoo.com.br com o Renato Rosatti. Site: www.infernoticias.blogspot.com

29 março

O DOCE AVANÇO DA FACA - Petter Baiestorf em grande forma


Desde os anos 90, Petter Baiestorf se firmou como o grande nome do cinema trash transgressor marginal nacional com sua Canibal Filmes. E é muito bom constatar que após quase 20 anos passados do seu primeiro filme, ele continua com o mesmo espírito. O Doce Avanço da Faca tem tudo que aprendemos a amar nos filmes da Canibal: personagens caricaturais, sangueira, mortes toscas, forte ironia crítica, e muita sacanagem. É provocante e provocativo, seguindo a linha de Vadias do sexo Sangrento, de 2008.




Filmado em apenas 5 dias, no bucólico cenário de Palmitos / SC, é um média metragem sobre o apaixonado e despojado casal Rerinelson (Coffin Souza) e Ana Clara (Gisele Ferran) que, por suas atitudes e crenças tidas como obscenas, despertam a ira de seus vizinhos fanáticos religiosos.





A maior inspiração recente para o Doce Avanço foi Machete, de Robert Rodriguez. Mas aqui temos Gisele Ferran desempenhando o papel da caçadora com facas. E, convenhamos, por mais que Danny Trejo seja uma figura lendária de Hollywood, Gisele fica muito mais interessante nesse papel. E ela realmente rouba a cena, completamente à vontade (e como), com atuação segura em todo o filme, transitando com facilidade de uma ternura maliciosa para uma sede sanguinária de vingança. Aliás, onde é que o Baiestorf arruma tantas musas de tanta desenvoltura para seus filmes?


 As demais atuações também são bem eficientes, hilárias e exageradas na medida certa para a proposta do filme, com destaque para o trio Coffin Souza, Ellio Copini e Jorge Timm, que acompanham Baiestorf desde o início de suas produções e com ele atingiram um alto grau de entrosamento. Tudo está bem encaixado, desde as ótimas inserções sonoras, que dão um tom cômico nas cenas mais ousadas, até o trabalho de direção e fotografia, que proporciona interessantes enquadramentos e cenas bem conduzidas. É visível a evolução técnica do diretor e sua equipe após esses anos de estrada, mas sem nunca deixar de lado a tosqueira e a forma visceral e despojada de filmar.


Um tema que é preciso destacar nessa produção é a interlinguagem. Rerinelson é um desenhista de Histórias em Quadrinhos eróticas, e em certo momento do filme temos uma verdadeira exposição de seus desenhos sado-masoquistas, enquanto Ana Clara recita versos ultra-sacanas. Uma boa sacada que sem dúvida proporciona um diferencial, constituindo um pequeno filme dentro do filme, que pode até ser visto de forma independente. Os criativos e ousados desenhos são de autoria de Leyla Buk, em homenagem principalmente ao estilo de Carlos Zéfiro.



Se a primeira parte do filme, que apresenta, em literal profundidade, os personagens, é bem desenvolvida, talvez a falha de O Doce Avanço seja a sequência final, depois que Ana Clara se transforma em Fúria, “o terror dos fanáticos religiosos”. Tudo acontece muito rápido. Embora as cenas das mortes sejam inventivas, a sensação é que a caçada perpetrada por Fúria poderia ter sido mais trabalhada. Talvez um pouco mais de suspense e combates mais intensos. O filme bem poderia ter pelo menos uns vinte minutos a mais. Mas, obviamente, a falta de recursos e de tempo pode ter sido um empecilho. E essa sensação de “quero mais” que temos no final não deixa dúvidas de que o filme é realmente bom.


Enfim, é mais um clássico do Baiestorf. Explícito. Direto. Sem concessões. E assim sendo, não recomendado para conformistas e conservadores. Mas quem procura diversão e conteúdo forte vai saborear cada minuto...

23 março

A PEREGRINAÇAO DO SERVO DE ISHTAR - Parte III





Finalmente chego ao Butão, entre as esquecidas fendas himalaias. Cannabis aqui é mato. Negócios à vista. Consumo proibido. Procuro traficantes. “Somos poucos, não faz parte da nossa cultura, pouca gente compra”. Um terreno. Faço minha plantação. Apenas mercado interno não vai prosperar. Mas vivemos num mundo globalizado, não é mesmo? Quem não vai desejar experimentar a legitima maconha butanesa? Associo com importadores chineses na fronteira. Agora sim, felicidade geral na nação. E as garotas? Onde estão as garotas? Não andam nas ruas sem um homem ao lado. E sempre encobertas pela broxante Khira. Tudo bem, sempre há o subterrâneo. E foi lá que conheci a garota do piercing. Que ousadia, fazer um piercing no Butão. O amor reprimido. Inesquecível, mágico. Por um momento achei que poderia fincar raízes naquela terra. Mas nunca é assim. A garota do piercing não é minha, é do mafioso chinês. “Os malditos chineses querem nos dominar. Essas porcarias industriais que eles trazem estão por toda parte”. Os butaneses se orgulham de nunca terem sido colonizados ou conquistados. “Resistimos aos imperialistas. Sempre vamos manter as tradições.” Percebo que não faço parte da tradição. Desfaço o negócio, desfaço o amor. E agora? Pra onde? Afinal, qual caminho desejo realmente seguir?  “Você deve subir aquela trilha. A mais alta montanha de Bumthang. Três mil metros até o Monastério de Guolishan. Ali encontrará a redenção”. Imediatamente me atrevo pela rota sinuosa, sem montaria, sem mochila, sem equipamento, sem água, sem pão, apenas a roupa que por acaso cobria meu corpo. Três dias de caminhada. Trechos estreitos e traiçoeiros. Só penso no topo. Não sinto sede, não sinto fome, não sinto remorso, não sinto medo. Nunca soube me explicar e não é agora que vou tentar. Majestosamente, enfim, a última curva se esvai. Toda a suntuosidade do templo se ergue a minha frente. Encaro os maciços portões de bronze. Nunca estive aqui, mas é tão familiar, como se sempre tivesse sido meu lar. Será aqui o meu destino, tão almejado, até então tão desconhecido e distante? Vinda de lá dentro, uma voz parece me chamar. Olho para a pesada porta, que parece se mover em minha direção. É ouro que a reveste? São diamantes que a ornamenta? Olho para os vales e as montanhas que devoram a paisagem além do templo. Olho para as nuvens cinzentas que pairam sobre mim, fiéis companheiras. Não posso mais fugir do meu destino. Dou meia volta e desço pela trilha serpenteante.



Veja também:

16 março

ANUÁRIO DE FANZINES UGRA PRESS



Pare o que estiver fazendo nesse momento, inclusive essa leitura, acesse o link http://ugrapress.wordpress.com/  e baixe IMEDIATAMENTE o 1º Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas da Ugra Press.

Qual a razão da urgência de se conhecer tal obra? Pois é um trabalho que há muito tempo não se via, um compêndio do que vem sendo produzido atualmente em termos de publicações impressas independentes. Temos aqui um extenso catálogo de fanzines e revistas underground, que, obviamente não é absoluto, mas sem dúvida representativo do que está em circulação pelo Brasil.

E as obras não foram apenas catalogadas, mas resenhadas de forma atenta e objetiva, em análises concisas que fogem do superficialismo. É nítida a dedicação com que os editores encararam a empreitada. Eles abriram o espaço para todos os tipos de publicação, desde os experimentais até os tradicionais. O resultado final é uma rica variedade temática, temos desde obras anarco-extremas anti-civilização até mangás, desde super-heróis até luciferianismo. Embora os textos sejam leituras pessoais dos resenhistas, eles evidenciam bem a essência de cada obra. Podem até criticar, mas de forma construtiva e sem jamais cersear ou limitar. O espaço foi aberto igualmente para todos, independente de ideologias. Isso é importantíssimo dentro da proposta que foi assumida neste anuário.  Além das resenhas, temos mini-entrevistas com vários faneditores, com o cuidado de serem escolhidos representantes dos mais variados tipos de publicações, evidenciando a pluralidade do anuário.    

Esta edição abre com uma engraçadíssima e bem produzida foto-novela. E então apresenta as resenhas de mais de 100 fanzines. Um número bastante expressivo quando consideramos que muita gente acha que os zines impressos morreram. Ainda que a última edição de alguns deles não seja tão recente, é impressionante e revelador a quantidade não só de zines antigos que continuam impressos, como de novos zines que, em plena era digital, aparecem com seu número #1 no bom e velho papel. E esta percepção de vivacidade certamente influenciará novos e antigos editores a produzirem e produzirem. Resumindo: há um mundo de publicações independentes ao nosso redor aberto a todos que quiserem adentrá-lo. 

E como se precisasse de mais alguma coisa, temos ainda interessantes textos sobre fanzinotecas, educação e teoria da comunicação. Enfim, uma edição bem pensada e bem produzida. Claro que pode melhorar, seria ótimo se fossem incluídas as capas ou imagens representativas de todos os zines, mas aí além de aumentar ainda mais o trabalho, poderia inviabilizar a publicação pelo grande número de páginas demandado. Uma sugestão seria destacar nas resenhas o nome do editor e a cidade de onde veio a publicação. 

Da forma como ficou, este 1ª anuário Ugra Press cumpriu muito bem seu objetivo, e o próximo (torçamos para que haja um próximo), certamente com um apoio ainda maior, tem tudo para ser ainda melhor.

15 março

PARTES FORA DO TODO

(Wagner T.)



Iguinho ganhou de seus pais um quebra-cabeça monumental de 3000 peças. Deu um trabalho gigante, mas Iguinho teve paciência e conseguiu montá-lo por completo. Ficou muito feliz e orgulhoso. Mostrou para seus pais que acharam muito bonito e para seus amigos que acharam foda. Algumas peças chamavam a atenção de Iguinho, pareciam mais bonitas que as outras. Ele as retirou do quebra-cabeça montado e percebeu que isoladas elas eram ainda mais radiantes, ganhavam uma luz própria que as faziam brilhar como estrelas onipresentes. Iguinho deixou estas peças ao lado do conjunto montado, que, aliás, também curiosamente pareceu ter ficado muito mais bonito sem aquelas peças.
Agora sim o quebra-cabeça estava resolvido.
Montá-lo foi muito bom, mas transmutá-lo foi muito melhor.