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segunda-feira, 18 de maio de 2015

PUTRECRÔNICAS - PÁGINA 2







RELATOS DA DECOMPOSIÇÃO HUMANA



PÁGINA 2 – UM NOVO MUNDO VELHO



Nâo se preocupe se não encontrou a página anterior, escrevo sem pretensão de continuidade ou preservação, pois estas páginas são apenas fragmentos de um rascunho que o mundo se tornou (e o mundo já não era nenhuma obra de arte).

Depois que tudo acaba você muda completamente seu modo de pensar e agir. Descobre que tudo que você planejava, seus sonhos e objetivos eram completas tolices insignificantes incutidas por uma civilização perdida e vazia. Depois que tudo acaba não há mais credos, não há ideais, não há pelo que lutar. Mas ainda assim você quer sobreviver. O sentido da vida é esse: pura e simplesmente sobreviver. Os homens, com suas filosofias pretensiosas, sua curiosidade inútil, e sua ambição de chegar aonde não pode nem deve ir, não valorizou seu maior e único bem: sua vida. Mas agora, a vida, a simples vida, parece ser uma grande causa pela qual lutar.

Hoje contarei a saga de Sua Excelência. Sua Excelência era Juiz de Direito antes do caos. Nesse momento, é apenas um fugitivo, como todos aqueles que ainda vivem e habitavam aquela grande metrópole, e agora, em desespero, tentam escapar do apocalipse. Escapar pra onde, ninguém sabe, e nem se perguntam, pensam apenas em sair do tumulto.

Sua Excelência dirige seu sedan importado velozmente pela estrada. Conseguiu escapar  da cidade. Agora percorre um trecho deserto, apenas asfalto e a vegetação ao redor. Checa os retrovisores, nenhum sinal de qualquer outro veículo. Que alívio. Diminui um pouco a velocidade. Desliga o limpador do para-brisa, o vidro ainda ficou um pouco melado pelo sangue dos pedestres que atropelou, mas está desembaçado o suficiente para enxergar com nitidez à frente. Pensa em sua família. Será que conseguiram escapar? Bem, não vai voltar lá para descobrir.

Após alguns minutos, talvez uma hora, dirigindo com certa tranquilidade, respiração e batimentos cardíacos finalmente normais, nova fatalidade. O poderoso sedan importado, pela primeira vez desde que saiu da fábrica, começa a engasgar. Porra, não, não faça isso comigo, ordena Sua Excelência. Mas o veículo, de forma desrespeitosa, continua a falhar, a aceleração cessa, até parar completamente. Sua Excelência não acredita naquilo. Comprou aquele sedan zero quilômetro, há um ano e meio atrás, e nesse período nunca precisou levá-lo a mecânico, nunca teve nenhum problema. E vem deixá-lo na mão logo agora, na mais crítica das situações?

Possivelmente o problema deve ter sido ocasionado pelas batidas de raspão, durante sua fuga alucinada, em outros carros, motos, pedestres, árvores e diversos obstáculos que dificultavam sua saída da cidade. Olha pro painel e tenta lembrar qual botão abre o capô. Mas não faz diferença, não entende nada de mecânica, nunca vai descobrir qual o problema. Tantos anos de estudo, tantos livros e leis, deveria ter estudado mais mecânica.

Sem outra saída, sai do carro. Sensação de completo abandono. Está largado, desamparado. Antes do caos, nunca precisou se preocupar com nada, sempre havia outros, os subservientes, para fazer tudo por ele. E agora? Que fará? Pra onde vai? Pra lugar nenhum, não pode simplesmente abandonar um sedan de 300 mil dólares, fatalmente irão roubá-lo. Não pode permitir isto. Senta sobre o capô e espera. Alguém há de aparecer.

O sol passa a incomodar. Maldito carro, poderia estar no seu ar condicionado. Não queria, mas vai ter que tirar o terno para aliviar. Sua Excelência nunca antes tirou o terno em público, fosse qual fosse o calor. Nisso, ao levantar do capô, outro carro surge no horizonte, vindo no mesmo sentido em que Sua Excelência trafegava. É uma viatura. Que sorte!

Imediatamente saca do bolso sua identidade funcional e a levanta em destaque. Nenhum policial ousaria deixar de prestar atendimento a um Juiz. Sem desacatá-lo, a viatura de fato encosta. Para alívio de Sua Excelência, um policial fardado sai pela porta do motorista.

-Boa tarde, policial – cumprimenta, aproximando a identidade para que seu socorrista e possível motorista particular não tenha qualquer dúvida.

-Boa tarde, doutor. Sofreu algum acidente? Está bem?

-Estou bem, mas meu sedan infelizmente não. Preciso de carona. Está indo pra qual cidade?

-Carona? Puxa, - responde meio sem graça – tem um problema.

Aponta pra viatura, em que três pessoas no banco de trás e uma no banco do carona estão prostadas, gemendo. Parecem bastante feridas, sujas e sangrando.

-Estamos indo pro hospital mais próximo, em Pangualândia. Espero que esteja funcionando. Essas pessoas precisam de atendimento. Foram as únicas que consegui salvar. Como o senhor pode ver, o carro tá lotado.

-Puxa, isso é terrível. Eu lamento muito por essas pessoas. Mas infelizmente estamos em uma situação de calamidade e certas medidas desagradáveis precisam ser tomadas. Policial, sinto muito, mas precisarei requisitar sua viatura.

-Mas... não vai caber todo mundo no carro...

-Sim, infelizmente. Peço que retire todas essas pessoas da viatura. Eu a guiarei até Pangualândia e ordenarei que seja providenciado o devido socorro para vocês. Aguardem aqui junto ao acostamento a chegado da ajuda. O rádio da viatura está funcionando, policial?

O humilde executor da lei por um momento parece não acreditar naquelas ordens, fita abobado o juiz, que continua empunhando sua identidade funcional para lembrá-lo de que está falando com a própria personificação da justiça e ordem.

-Hã... não. Não consigo comunicação por rádio.

-É uma pena. Que situação catastrófica. Mas temos que ter fé, policial. Essa tragédia será contornada. Se conseguimos sobreviver até agora, sobreviveremos até o fim. Agora, por favor, retire essas pessoas da viatura.

Sem se atrever a descumprir seu ofício, o jovem oficial abre a porta do carona e começa a carregar o primeiro passageiro para fora.

-O que está fazendo? – balbucia o infeliz moribundo, quase inconsciente.

-Desculpa, pessoal, mas ele é autoridade, temos que obedecer.

Descarregada toda a bagagem humana junto ao acostamento, Sua Excelência enfim pode assumir a direção. Fica feliz pelo assento do motorista não estar encharcado de sangue como os outros, o que diminui o nojo de entrar naquele carro. Não é um sedan importado, mas é a opção disponível. Consola o policial mais uma vez, pedindo para que acalme os feridos e tenha paciência, a ajuda não tardará. Então parte em alta velocidade.

Após se distanciar, pensa novamente no sedan. E se aquele policial o roubar? Não, ele não se atreveria. Quando chegar à próxima cidade, poderá requisitar ajuda para resgatá-lo. Bom, ele já tinha um ano e meio de uso mesmo, já estava na hora de trocar.  Dirige sossegado por cerca de uma hora, sem se deparar com nenhum outro veículo ou alma viva, pensando em qual poderia ser seu próximo carro, e então... só então... percebe uma luz vermelha piscando no painel. A gasolina. Não, não pode ser! Vai ficar sem gasolina em breve. Não é possível tanto azar!

Tenta não se desesperar, nada a fazer senão continuar até onde der. Mais alguns minutos e... o que é aquilo? Uma barreira na estrada. Não, uma batida. Dois caminhões parecem ter se chocado e ficaram atravessados na pista. Não há como passar. Bem, ele não iria muito longe mesmo. Talvez algum dos caminhões esteja funcionando. Ou tenha gasolina. Ou comida. Sente fome.

Desce da viatura e se aproxima, quando repentinamente surgem três homens vindos de trás de um dos caminhões correndo em sua direção.

-Pega o safado.

Não tem tempo de reagir e os três estão sobre ele, socando e chutando até derrubá-lo e então chutando mais.

-PM de merda!

Um deles tem o cuidado de tirar seu terno para aproveitar a bela peça de roupa:

-Deve ser delegado esse cretino. Olha que terno bacana. Vou ficar com ele.

Depois de castigá-lo o suficiente para que não tenha condição de reagir ou levantar por algum tempo, prendem seus braços de forma improvisada com um cinto.  Sua Excelência não consegue raciocinar direito, sente muita dor em todo o corpo, nunca sentiu tanta dor, acredita que está com os braços, pernas e costelas quebrados, tem a sensação de ter perdido vários dentes, o rosto inchado, não consegue enxergar direito, respira com dificuldade. Dois dos seus opressores o mantém estirado no chão enquanto o terceiro vai até a viatura.

-Mas que merda.

-Que foi?

-Está sem gasolina. E não tem também nenhuma arma ou qualquer coisa que possa ser útil.

-Porra. Esses porcos não servem pra nada mesmo. - Dá mais um potente chute nas costelas de Sua Excelência, que o faz berrar de dor. O outro também volta a chutá-lo e sua excelência imagina que é o fim, está morto. Mas o terceiro retorna gritando:

-Esperem. Parem. Tive uma ideia. Vamos usar esse porco como isca.

-Como isca? Lá naquele posto?

-Isso. Jogamos ele pela porta da frente. Enquanto os bichos se ocupam dele, entramos pelo fundo e fazemos a limpa rapidamente.

-Pode funcionar. Vamos tentar.

Aterrorizado, Sua Excelência sabe muito bem o que eles quiseram dizer com “bichos”. Grunhe e se debate enquanto é erguido, mas os agressores o seguram com violência e cobrem sua boca com uma fita. Mal consegue andar, mas é arrastado pelos três. Não sabe quanto tempo andaram, quase perdeu os sentidos várias vezes, só percebe o anoitecer a se aproximar. Até que chegam a uma velha construção. Um posto policial.

Dois dos homens o seguram, o terceiro se aproxima da janela.

-Eles ainda estão lá. Um monte de criaturas.

-Vamos, porco. Hoje você vai ser o prato principal da reunião de zumbis, hahaha.

O que espiava a janela vai até os fundos e logo retorna.

-Tudo da forma como deixamos. Enquanto eles estiverem ocupados com o delegado, temos que ser rápidos. Pegamos quantas armas e munição conseguirmos carregar e saímos sem demora. Prontos?

-Vamos lá.

Sua Excelência grita não, não, mas apenas grunhidos passam pela fita selante. Um dos malfeitores abre sutilmente a porta e os outros o jogam dentro. Sua Excelência agora desperta totalmente ao ver o que se encontra no recinto. Muitas, muitas, muitas criaturas. Deve haver umas vinte ali.

Elas aparentemente estavam paradas ou cambaleando desconexas, mas então parecem perceber sua presença. Viram-se todas pra ele, em estado de choque junto à porta, amarrado e amordaçado. Passam a caminhar em sua direção. O cheiro dos gases de putrefação e carne podre beira o insuportável, o que aumenta a agonia de Sua Excelência. As pernas tremem, desaba no chão. Os seres repulsivos que um dia foram humanos logo estão sobre ele. Em estado de choque, sem conseguir se mover, Sua excelência apenas fecha os olhos. Entao sente... sente mãos frias e ásperas o tocando. Logo está encoberto pelos mortos ambulantes, o fedor quase o faz desmaiar.

Dois agressores observavam da janela e gritam eufóricos:

-Deu certo. Os que estavam nos fundos também estão vindo. Vamos.

O outro segurava a porta para evitar tentativas de fuga, agora pode correr também em direção aos fundos.  

Sua Excelência, jogado ao chão, permaneceu em choque por algum tempo. Segundos, talvez minutos, enquanto os demônios o apalpavam e se amontoavam. Podia sentir o toque gelado da peste e da morte. Sentia... meu deus... larvas e vermes e fluidos indescritíveis escorrerem daquelas carcaças decrépitas sobre seu corpo, sobre sua roupa social impecável.

Abre então sutilmente os olhos, bem a tempo de ver o rosto medonho de um dos desmortos a centímetros do seu, o encarando com aquelas duas órbitas vazadas e a boca aberta de onde sai uma baba cinzenta e gosmenta, que mais parece a regurgitação dos órgãos internos se liquefazendo e escapando pelas mucosas. A baba viscosa horripilante escorre... e escorre... cada vez mais perto...

De repente, num surto alucinado, Sua Excelência explode em fúria e desespero. Não sabe de onde tirou forças, como se esquecesse do corpo surrado, consegue se chacoalhar e levantar, afastando aquela horda pós-humana. Percebe que o cinto que prendia suas mãos se soltou. Liberta os braços, tira a fita de seus lábios e solta um urro estrondoso como jamais havia gritado em sua vida, fazendo as coisas pestilentas se afastarem, aparentemente assustadas. Utilizando do próprio cinto, parte para o ataque, inflamado por uma ira assassina.
  
Sobre o morto-vivo mais próximo, aquele que quase o babou, desfere um potente soco na cabeça. Sente sua mão afundar, um coágulo de fluido asqueroso jorra pelo rosto pálido, então o cadáver desaba como um boneco desarticulado.

Desfere socos, chutes, cintadas, em tudo que vê pela frente. Sangue, pedaços de pele, de tecidos necrosados e até mesmo de ossos, vermes e insetos antropófagos que residiam nas carcaças, pastas de necrochorume, e excrecências de todo tipo voam pra todo lado. Um baile descoordenado de matéria orgânica decadente envolve todo aquele recinto que outrora foi um ordeiro posto policial. Sua Excelência ainda chicoteia o ar por um momento até perceber que só ele restou de pé.

Não acredita, derrotou todos os zumbis. Se sente um herói em um filme. De onde tirou tanta força? O espírito agora está renovado. Os monstros podem ser destruídos. Talvez haja esperança. Saltando sobre toda aquela massa pútrida repugnante, percorre a sala principal em direção aos fundos. Não encontra mais nada nem ninguém. Seus seqüestradores pelo visto já limparam o lugar e se foram. Malditos. Se Sua Excelência os pegasse agora, daria o troco. Sente uma energia sobrehumana percorrendo seu corpo. Corre para fora. A noite já se debruçou sobre a vastidão do campo. Para onde ir? Não importa. Aproveita a disposição que sente e apenas segue a estrada.

Minutos depois, ou teriam sido horas?, o corpo torna a latejar. Pelo visto, a disposição que sentia era apenas o sangue quente. Membros, costas, tudo dói. Sente fome. Devia ter ficado no posto até o dia seguinte. Não. Não poderia dormir no meio daquelas criaturas. Fome. Além da estrada deserta, apenas mato e árvores ao redor. Não tem a mínima idéia de como arrumar comida. Queria ter acampado mais nas férias, ter feito um curso de sobrevivência no campo.

Cada vez maior o cansaço, segue se arrastando pelo tempo, sensação de estar caminhando horas. Será que está amanhecendo? Não, lua ainda domina o céu. Quantas estrelas. Nunca havia visto tantas estrelas. Mas então... uma cancela na margem e uma pequena trilha quebrando a mesmice da estrada. Deve ser a entrada de uma fazenda, ou pelo menos uma casa. Uma casa! É tudo que deseja. Nenhum cidadão lhe negaria refúgio.

Segue cambaleante pela trilha, que serpenteia brevemente a vegetação até despontar na salvação. Uma casa, logo mais à frente. Pequena e rústica, mas um lar. Deve ter comida e uma cama. Tudo o que Sua Excelência precisa.

O lugar possui apenas um pavimento e aparenta estar vazio, com as luzes apagadas. Aproxima-se devagar, lembrando da emboscada anterior. Melhor que esteja abandonado mesmo. De toda forma, não tem escolha. Está exausto.

Chega à porta, gira a maçaneta. Destrancada. Entra cauteloso. Breu total. Tateia a parede procurando interruptor. Um golpe perfurante na barriga. Que dor! Nunca sentiu tanta dor. Pernas tremem. Desaba ao chão. Luzes se acendem, mas a consciência começa a apagar.

-Não falei? É o filho da puta que jogamos no posto. De alguma forma, conseguiu escapar e nos seguiu. Devia estar querendo se vingar.

-Achou que ia nos pegar dormindo ou desprevenidos? Que idiota.

Sua Excelência não tem condições de responder, nem consegue escutar mais nada, apenas aperta o estômago e sente o sangue quente transbordar por suas mãos. Pressiona, num gesto mais intintivo que racional, tentando cobrir a ferida, mas o sangue jorra mais e mais. Tantos anos de estudo, tantos livros e leis, queria ter estudado primeiros socorros. Mas, a essa altura, já não faria muita diferença...




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