É O QUE É. E O QUE NÃO É.

terça-feira, 29 de março de 2011

O DOCE AVANÇO DA FACA - Petter Baiestorf em grande forma


Desde os anos 90, Petter Baiestorf se firmou como o grande nome do cinema trash transgressor marginal nacional com sua Canibal Filmes. E é muito bom constatar que após quase 20 anos passados do seu primeiro filme, ele continua com o mesmo espírito. O Doce Avanço da Faca tem tudo que aprendemos a amar nos filmes da Canibal: personagens caricaturais, sangueira, mortes toscas, forte ironia crítica, e muita sacanagem. É provocante e provocativo, seguindo a linha de Vadias do sexo Sangrento, de 2008.




Filmado em apenas 5 dias, no bucólico cenário de Palmitos / SC, é um média metragem sobre o apaixonado e despojado casal Rerinelson (Coffin Souza) e Ana Clara (Gisele Ferran) que, por suas atitudes e crenças tidas como obscenas, despertam a ira de seus vizinhos fanáticos religiosos.





A maior inspiração recente para o Doce Avanço foi Machete, de Robert Rodriguez. Mas aqui temos Gisele Ferran desempenhando o papel da caçadora com facas. E, convenhamos, por mais que Danny Trejo seja uma figura lendária de Hollywood, Gisele fica muito mais interessante nesse papel. E ela realmente rouba a cena, completamente à vontade (e como), com atuação segura em todo o filme, transitando com facilidade de uma ternura maliciosa para uma sede sanguinária de vingança. Aliás, onde é que o Baiestorf arruma tantas musas de tanta desenvoltura para seus filmes?


 As demais atuações também são bem eficientes, hilárias e exageradas na medida certa para a proposta do filme, com destaque para o trio Coffin Souza, Ellio Copini e Jorge Timm, que acompanham Baiestorf desde o início de suas produções e com ele atingiram um alto grau de entrosamento. Tudo está bem encaixado, desde as ótimas inserções sonoras, que dão um tom cômico nas cenas mais ousadas, até o trabalho de direção e fotografia, que proporciona interessantes enquadramentos e cenas bem conduzidas. É visível a evolução técnica do diretor e sua equipe após esses anos de estrada, mas sem nunca deixar de lado a tosqueira e a forma visceral e despojada de filmar.


Um tema que é preciso destacar nessa produção é a interlinguagem. Rerinelson é um desenhista de Histórias em Quadrinhos eróticas, e em certo momento do filme temos uma verdadeira exposição de seus desenhos sado-masoquistas, enquanto Ana Clara recita versos ultra-sacanas. Uma boa sacada que sem dúvida proporciona um diferencial, constituindo um pequeno filme dentro do filme, que pode até ser visto de forma independente. Os criativos e ousados desenhos são de autoria de Leyla Buk, em homenagem principalmente ao estilo de Carlos Zéfiro.



Se a primeira parte do filme, que apresenta, em literal profundidade, os personagens, é bem desenvolvida, talvez a falha de O Doce Avanço seja a sequência final, depois que Ana Clara se transforma em Fúria, “o terror dos fanáticos religiosos”. Tudo acontece muito rápido. Embora as cenas das mortes sejam inventivas, a sensação é que a caçada perpetrada por Fúria poderia ter sido mais trabalhada. Talvez um pouco mais de suspense e combates mais intensos. O filme bem poderia ter pelo menos uns vinte minutos a mais. Mas, obviamente, a falta de recursos e de tempo pode ter sido um empecilho. E essa sensação de “quero mais” que temos no final não deixa dúvidas de que o filme é realmente bom.


Enfim, é mais um clássico do Baiestorf. Explícito. Direto. Sem concessões. E assim sendo, não recomendado para conformistas e conservadores. Mas quem procura diversão e conteúdo forte vai saborear cada minuto...

quarta-feira, 23 de março de 2011

A PEREGRINAÇAO DO SERVO DE ISHTAR - Parte III





Finalmente chego ao Butão, entre as esquecidas fendas himalaias. Cannabis aqui é mato. Negócios à vista. Consumo proibido. Procuro traficantes. “Somos poucos, não faz parte da nossa cultura, pouca gente compra”. Um terreno. Faço minha plantação. Apenas mercado interno não vai prosperar. Mas vivemos num mundo globalizado, não é mesmo? Quem não vai desejar experimentar a legitima maconha butanesa? Associo com importadores chineses na fronteira. Agora sim, felicidade geral na nação. E as garotas? Onde estão as garotas? Não andam nas ruas sem um homem ao lado. E sempre encobertas pela broxante Khira. Tudo bem, sempre há o subterrâneo. E foi lá que conheci a garota do piercing. Que ousadia, fazer um piercing no Butão. O amor reprimido. Inesquecível, mágico. Por um momento achei que poderia fincar raízes naquela terra. Mas nunca é assim. A garota do piercing não é minha, é do mafioso chinês. “Os malditos chineses querem nos dominar. Essas porcarias industriais que eles trazem estão por toda parte”. Os butaneses se orgulham de nunca terem sido colonizados ou conquistados. “Resistimos aos imperialistas. Sempre vamos manter as tradições.” Percebo que não faço parte da tradição. Desfaço o negócio, desfaço o amor. E agora? Pra onde? Afinal, qual caminho desejo realmente seguir?  “Você deve subir aquela trilha. A mais alta montanha de Bumthang. Três mil metros até o Monastério de Guolishan. Ali encontrará a redenção”. Imediatamente me atrevo pela rota sinuosa, sem montaria, sem mochila, sem equipamento, sem água, sem pão, apenas a roupa que por acaso cobria meu corpo. Três dias de caminhada. Trechos estreitos e traiçoeiros. Só penso no topo. Não sinto sede, não sinto fome, não sinto remorso, não sinto medo. Nunca soube me explicar e não é agora que vou tentar. Majestosamente, enfim, a última curva se esvai. Toda a suntuosidade do templo se ergue a minha frente. Encaro os maciços portões de bronze. Nunca estive aqui, mas é tão familiar, como se sempre tivesse sido meu lar. Será aqui o meu destino, tão almejado, até então tão desconhecido e distante? Vinda de lá dentro, uma voz parece me chamar. Olho para a pesada porta, que parece se mover em minha direção. É ouro que a reveste? São diamantes que a ornamenta? Olho para os vales e as montanhas que devoram a paisagem além do templo. Olho para as nuvens cinzentas que pairam sobre mim, fiéis companheiras. Não posso mais fugir do meu destino. Dou meia volta e desço pela trilha serpenteante.



Veja também:

quarta-feira, 16 de março de 2011

ANUÁRIO DE FANZINES UGRA PRESS



Pare o que estiver fazendo nesse momento, inclusive essa leitura, acesse o link http://ugrapress.wordpress.com/  e baixe IMEDIATAMENTE o 1º Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas da Ugra Press.

Qual a razão da urgência de se conhecer tal obra? Pois é um trabalho que há muito tempo não se via, um compêndio do que vem sendo produzido atualmente em termos de publicações impressas independentes. Temos aqui um extenso catálogo de fanzines e revistas underground, que, obviamente não é absoluto, mas sem dúvida representativo do que está em circulação pelo Brasil.

E as obras não foram apenas catalogadas, mas resenhadas de forma atenta e objetiva, em análises concisas que fogem do superficialismo. É nítida a dedicação com que os editores encararam a empreitada. Eles abriram o espaço para todos os tipos de publicação, desde os experimentais até os tradicionais. O resultado final é uma rica variedade temática, temos desde obras anarco-extremas anti-civilização até mangás, desde super-heróis até luciferianismo. Embora os textos sejam leituras pessoais dos resenhistas, eles evidenciam bem a essência de cada obra. Podem até criticar, mas de forma construtiva e sem jamais cersear ou limitar. O espaço foi aberto igualmente para todos, independente de ideologias. Isso é importantíssimo dentro da proposta que foi assumida neste anuário.  Além das resenhas, temos mini-entrevistas com vários faneditores, com o cuidado de serem escolhidos representantes dos mais variados tipos de publicações, evidenciando a pluralidade do anuário.    

Esta edição abre com uma engraçadíssima e bem produzida foto-novela. E então apresenta as resenhas de mais de 100 fanzines. Um número bastante expressivo quando consideramos que muita gente acha que os zines impressos morreram. Ainda que a última edição de alguns deles não seja tão recente, é impressionante e revelador a quantidade não só de zines antigos que continuam impressos, como de novos zines que, em plena era digital, aparecem com seu número #1 no bom e velho papel. E esta percepção de vivacidade certamente influenciará novos e antigos editores a produzirem e produzirem. Resumindo: há um mundo de publicações independentes ao nosso redor aberto a todos que quiserem adentrá-lo. 

E como se precisasse de mais alguma coisa, temos ainda interessantes textos sobre fanzinotecas, educação e teoria da comunicação. Enfim, uma edição bem pensada e bem produzida. Claro que pode melhorar, seria ótimo se fossem incluídas as capas ou imagens representativas de todos os zines, mas aí além de aumentar ainda mais o trabalho, poderia inviabilizar a publicação pelo grande número de páginas demandado. Uma sugestão seria destacar nas resenhas o nome do editor e a cidade de onde veio a publicação. 

Da forma como ficou, este 1ª anuário Ugra Press cumpriu muito bem seu objetivo, e o próximo (torçamos para que haja um próximo), certamente com um apoio ainda maior, tem tudo para ser ainda melhor.

terça-feira, 15 de março de 2011

PARTES FORA DO TODO

(Wagner T.)



Iguinho ganhou de seus pais um quebra-cabeça monumental de 3000 peças. Deu um trabalho gigante, mas Iguinho teve paciência e conseguiu montá-lo por completo. Ficou muito feliz e orgulhoso. Mostrou para seus pais que acharam muito bonito e para seus amigos que acharam foda. Algumas peças chamavam a atenção de Iguinho, pareciam mais bonitas que as outras. Ele as retirou do quebra-cabeça montado e percebeu que isoladas elas eram ainda mais radiantes, ganhavam uma luz própria que as faziam brilhar como estrelas onipresentes. Iguinho deixou estas peças ao lado do conjunto montado, que, aliás, também curiosamente pareceu ter ficado muito mais bonito sem aquelas peças.
Agora sim o quebra-cabeça estava resolvido.
Montá-lo foi muito bom, mas transmutá-lo foi muito melhor.

segunda-feira, 14 de março de 2011

FELIZES SÃO OS PEIXES

(Titãs – álbum Titanomaquia)


Tanto faz
É igual

Felizes são os peixes
Felizes são os peixes

Tanto faz
É igual
Tanto faz
É igual

Felizes são os peixes
Felizes são os peixes

Tanto faz
É igual

Felizes são os peixes
Felizes são os peixes

Tanto faz
É igual
Tanto faz
É igual

Felizes são os peixes
Felizes são os peixes

Nada
Nada
Nada
Nada

sexta-feira, 4 de março de 2011

Carnaval é o caralho!

Este é o samba-enredo pra todos os carnavais. O indefectível UNIDOS DO CARALHO A QUATRO captou o real espírito da festa. Este sim é campeão.

quinta-feira, 3 de março de 2011

SOBRE MIM

(por: Wagner T.)


Sobre mim?
Sobre mim às vezes há um teto de concreto que limita minha visão
Sobre mim há uma teia de poluição que prende o meu ar
Sobre mim às vezes há um corpo que merece ser tocado e amado
Sobre mim há uma consciência coletiva que ilude a si mesma
Sobre mim flutuam partículas elementares
Sobre mim passeiam organismos invisíveis
Sobre mim existem sonhos e idéias
Sobre mim muita coisa paira, muita coisa passa
Sobre mim há ainda muito a acrescentar.

QUEM SOU EU

(por: Wagner T.)




.



sim, é isso que sou
apenas um ponto
mas um ponto
no meio do nada
é bastante coisa

quarta-feira, 2 de março de 2011

SALVAÇÃO

(Por: Reverendo W. Van Baco)



A mulher apenas contemplava a riqueza do que restou
Até que o homem se aproximou e soprou: sou poeta
A mulher, distraída, demorou a responder: interessante
O homem embolava as palavras, mas saíam: quer ouvir?
A mulher pensou uma segunda opção... não havia: claro.
O homem declama:
         Sou o último homem
         Você, a última mulher
         Vamos foder
         Antes de morrer
A mulher comenta: bonito.
Envolvida, a mulher passa a também poetizar.
Eles passam a criar, todos os dias, o tempo todo.
Sempre juntos
Mas sem qualquer contato físico.
Não podem correr riscos
Por isso dedicam-se exclusivamente à arte.
Assim, homem e mulher aguardam a extinção.