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terça-feira, 26 de julho de 2011

RIOFAN 2011, A SERBIAN FILM E A ATERRORIZANTE VIDA REAL

Na última semana, aconteceu no Rio de Janeiro o Rio Fan, evento que exibiu vários filmes dos gêneros terror e fantástico. Mas nenhum filme exibido no festival foi tão assustador e repulsivo quanto um fato real acontecido: a censura do filme A Serbian Film.
A película sérvia estava prevista para ser exibida no sábado, 23/07, e mesmo tendo a devida classificação etária de 18 anos, e mesmo fazendo parte de um evento de temática específica, a direção da Caixa Econômica Federal, dona do espaço de exibição, decidiu, em cima da hora, vetar a projeção. 
A organuização do RioFan então soltou um comunicado sobre o fato:


O RioFan - Festival Fantástico do Rio 2011 recebeu na tarde desta quarta-feira, dia 20 de julho, o seguinte comunicado, que reproduzimos abaixo:   “Senhor Produtor, Informamos que, por decisão da Caixa Econômica Federal, o filme “A Serbian Film – Terror sem Limites” deverá ser retirado da programação da mostra RIOFAN, em cartaz na CAIXA Cultural RJ e patrocinada por essa Instituição.”   Não tivemos maiores esclarecimentos sobre o que levou à decisão. Nossa surpresa diante do veto foi ainda maior por sabermos que o filme em questão já foi exibido em dois diferentes festivais brasileiros há poucas semanas.   Diante deste fato, não temos opções se não abrir mão da exibição do filme do diretor Srdjan Spasojevic no contexto do festival - um filme premiado e exibido em alguns dos maiores festivais internacionais dedicados a cinema de gênero no mundo, além de festivais convencionais, entre eles:   - South by Southwest (Austin, EUA) - Festival Internacional do Filme de Fantasia (Bruxelas, Bélgica) - Fantasia (Montreal, Canadá) - Raindance (Londres, Inglaterra) - Fantasporto (Porto, Portugal) - Festival de Sitges (Sitges, Espanha) - Fantaspoa (Porto Alegre, Brasil) - Festival Lume (São Luis, Brasil)   Lamentamos profundamente a decisão e gostaríamos de aproveitar o ocorrido para expressar nossa opinião sobre o filme.   A Serbian Film é, sem sombra de dúvida, um dos filmes mais polêmicos de todos os tempos, e não sem razão: é uma obra que questiona os limites da representação cinematográfica e que lida com situações e temas absolutamente condenáveis.   As matérias veiculadas pela imprensa brasileira sobre o conteúdo do filme dão a entender, porém, que o filme apresenta cenas de pedofilia e necrofilia explícitas - o que não é verdade. Todas as cenas em questão são obviamente sugeridas e orquestradas por uma montagem que as integra numa narrativa dramática e séria cujo intuito é claramente denunciar a crise moral que se abateu sobre o país após a sangrenta guerra vivida na década de 1990, momento em que vidas humanas eram descartadas sem o menor pudor.   Não há, sob qualquer ótica possível, apologia à violência sexual contra mulheres ou menores de idade no filme. São atos absolutamente grotescos e tratados como tal por uma obra que se insere numa tradição de filmes “extremos” - um subgênero do cinema de horror que lida com questões repulsivas de forma radical, com o intuito de buscar o choque e a reflexão nos espectadores. Vale lembrar que a fonte de inspiração destes filmes é a experiência humana - em seus aspectos mais vis e depravados, por certo, mas não menos humanos, infelizmente.   O RioFan é radicalmente contra qualquer forma de censura - um mal que assolou nosso país durante décadas e contra o qual muitos deram o próprio sangue para extirpá-lo do Brasil. Somos a favor da total e irrestrita liberdade de expressão, pedra de toque de qualquer sociedade democrática. Somos defensores do cinema de horror em suas mais diversas vertentes e acreditamos que filmes como A Serbian Film têm um papel importante ao trazer à tona os horrores que compõem o material de nossos pesadelos coletivos. Ao programar A Serbian Film, acreditamos que, assim como o filme, estamos condenando explicitamente a prática da violência sexual em todas as suas vertentes e modalidades.   De nossa parte, gostaríamos ainda de dizer que temos a liberação de todos os programas do festival pelos órgãos competentes e que todos os filmes programados têm classificação indicativa para maiores de 18 anos.   Para finalizar, gostaríamos de anunciar que o Grupo Estação, em parceria com a distribuidora Petrini Filmes, irá promover uma sessão extraordinária de A Serbian Film no Cine Odeon, às 22h do próximo sábado, dia 23 de julho. É a chance de todos assistirem ao filme e tirarem suas próprias conclusões.   Equipe RioFan 2011

 
Mas os produtores do RioFan não contavam com a força dos moralistas de plantão. O Partido dos Democratas (DEM) impetrou uma ação contra a exibição do filme no Rio de Janeiro, e uma juíza considerou que eles tinham razão. Assim um oficial de justiça apreendeu a cópia no Odeon e foi o fim da saga do filme sérvio no Rio.
A revolta geral provocou uma manifestação em frente ao cine, no horário em que ocorreria a sessão. Lá o organizador do RioFan e o distribuidor de A Serbian Film no Brasil esclareceram os fatos, como ficou registrado em vídeo:


Diversas entidades manifestaram seu repúdio contra a censura, como pode ser verificado no site da Fundação Congresso Brasileiro de Cinema. Registro aqui a manifestação da Associação dos Roteiristas, que resume a indignação geral:



A Associação dos Roteiristas repudia imensamente a decisão da juíza Katerine Jatahy Kitsos Nygaard, resultante da ação movida pelo DEM e pelo advogado Victor Travancas, de proibir a exibição do filme “A Serbian Film”, apreendendo também a cópia de projeção. Tal atitude não acontece no Brasil desde 1984, quando questão semelhante censurou o filme “Je Vous Salue Marie”. Contudo, devemos lembrar que desde 1988 vigora no Brasil uma Constituição que é plena na defesa da liberdade de expressão e na proibição de atos de censura. A decisão da juíza não apenas nos choca enquanto cidadãos brasileiros, mas também enquanto artistas criadores de ficções e narrativas. Acreditamos plenamente que a arte deva ser livre e sem freios de qualquer natureza para o seu desenvolvimento. Ao se propor a discussão profunda da condição humana, nem sempre a arte resulta em uma obra leve e agradável e sim num retrato espantoso dos limites do ser humano. Acreditamos ainda que nenhuma obra de arte se realiza completamente sem a exposição e apreciação de um público. Os filmes só se finalizam a partir da recepção do espectador, que torna a obra viva, ainda mais rica de significações e implicações, além de promover um poderoso debate para a sociedade. Privando o público de uma obra de arte, nós autores-roteiristas nos sentimos atingidos e ofendidos, já que nosso texto necessita desse espectador para o fechamento de um círculo de apreciação. Infelizmente, apesar do espanto que nos causou a censura e a apreensão da cópia, entendemos que não se trata de um fenômeno pontual e isolado no país. Atitudes que vão contra a liberdade de expressão de artistas e cidadãos, como a proibição de marchas, atitudes homofóbicas, dubiedades intrínsecas no processo de classificação indicativa, etc, já eram cenas que vinham preparando a explosão desse clímax. É necessário então propor um desfecho para essa trágica narrativa que vai muito além do repúdio às atitudes dos cidadãos envolvidos nesse ato de censura. É urgente e necessário rediscutir, revalorizar e difundir os princípios de liberdade e de expressão que já fazem parte do documento mais importante que orienta a sociedade do nosso país. Diretoria da AR.


O fato é que depois das duas exibições em Porto Alegre e São Luís, e com a proposta ousada da distribuidora Petrini Filmes de distribuição em salas comercias, A Serbian Film começou a chamar atenção da grande mídia, com matérias sensacionalistas e superficialistas em veículos como Folha de São Paulo e Rede Bandeirantes. Matérias como essas causaram pânico na direção da Caixa, que não quiseram se comprometer em compactuar com a suposta apologia à pedofilia, e trouxeram uma oportunidade aos "democratas" do DEM de surgirem como os salvadores da virtude e dos valores familiares.

Esta é a situação de momento.
Ficou curioso em assistir A Serbian Film?
Lamento, você não assistirá.
Porque os detentores da razão e da moral consideram você incapaz de discernir sobre o que é certo ou errado e o que é ficção ou realidade. Assim, você não tem o direito de, se quiser, emitir sua opinião sobre o filme, de achar bom ou ruim, importante ou degradante.
Vale lembrar: A Serbian Film é FICÇÃO. Mas a censura é REAL.
Tivemos vários acontecimentos recentes de censura: sobre o site Falha de São Paulo (É isso mesmo, fAlha, não é a folha), sobre a Marcha da Maconha, e agora chega ao cinema.
Se continuar assim, em breve seu único lazer permitido será assistir as novelas imbecilizantes que dominam as transmissões televisivas.
Mobilize-se ou aceite.


4 comentários:

  1. Vou dar uma olhada na internet para ver se encontro em algum lugar para baixar, ver e tirar minhas próprias conclusões.

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  2. Acho uma grandessíssima hipocrisia censurar este filme. A perversão, a luxúria, a pedofilia e as violências em geral estão dentro de nossas casas, dentro dos muros das escolas, nas bancas de jornais e ao alcance da mão, da boca e dos olhos. Os meios midiáticos lucram rios de dinheiro, e inclusive, muitas vezes, se comprazem com toda sujeira que é inerente ao mundo. Digo isso, sem nenhum juízo de valor, cada um que faça o que quiser com sua vida e suas partes, todavia, temos a coerção para aqueles que infringem as leis, entretanto a pergunta: - o que tem o filme demais???? Alguma mentira sobre a realidade? Alguma subversão à "ordem" diferente do que já acontece todos os dias no mundo???? Censurar a arte que imita a vida é a mesma coisa que esconder a cabeça e deixar a bunda de fora. O que somos nós, um bando de avestruzes?! Chega de falso moralismo, pudor sintético e ética baseada em viés. Quero ver o filme!!!!

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  3. Pô, temos que assistir esse filme

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  4. E o filme na verdade nem é uma obra prima revolucionária e nem é tão impactante assim quando comparamos a outros filmes que tratam de temas pesados. Mas quem quiser tem que ter o direito de ver. Seria muito interessante se ele fosse lançado em salas comerciais, pra sacudir essa pasmaceira que tá o cinema convencional.

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