AGORA TAMBEM TEXTOS SEM ACENTUACAO E SEM PONTUACAO

SOU O QUE SEREI

28 março

Evolução



Tentou revolucionar o mundo


Falhou miseravelmente


Percebeu então que deveria ser mais humilde


Revolucionar a cidade


Não conseguiu


Revolucionar o bairro


Não deu


Revolucionar a rua


Não foi


Revolucionar sua casa


Também não


Conclui o óbvio 


Deveria revolucionar a si.


27 março

Viagens


Numa das nossas viagens transcendentais


Pousamos em um deserto


Apenas dunas e areia


E nosso corpo astral


Felizmente nesta forma sol não fustiga


Podemos caminhar despreocupadamente


Por horas


Nada muda


Será que nós mudamos?


Olhe pra trás e perceba suas pegadas na areia


Seres etéreos não deveriam deixar pegadas


Se você transformou o deserto, então o deserto te transformou, diria Borges


Olhe mais intensamente pra areia e


Ela não está mais lá


Apenas o piso do seu quarto


Estamos de volta


Não estamos de volta


Sempre estivemos aqui


Não fomos ao deserto 


O deserto veio a nós



Horas e horas passam


Talvez dias, talvez anos 


Nada muda 


Nada acontece


Voltamos ao deserto


Sol a pino, escaldante


Muita sede, sem água


Seguimos, um calor inclemente


Chegamos a lugar nenhum


O deserto devastador não tem fim


Está bem, maldito, você venceu


Deitamos na areia


É sua vez, deserto, nos transforme.


20 março

Mina

 

Mina

Fenilisopropila mina

Anfetamínica

Mina

Anfeta mina

Estimulante físico-intelectual

Contra fadiga

Viciante

Excitante

E a tolerância? Doses cada vez maiores para produzir o mesmo efeito...


19 março

Mimimi

 Ué

Ele não era atleta?

Como pode ter morrido?

O presidente garantiu que quem fosse atleta não sofreria nada.

Essa morte deve ser invenção dos comunistas...


16 março

uma vida bem vivida


uma vida bem vivida


Morreu, sem dor, em paz, feliz, com conforto e serenidade espiritual, e sensação de realização,

Aos cinco meses de idade.


15 março

Segunda visão

 Segunda visão


"Quando fecho os olhos, vejo coisas horríveis." Caso deveras interessante e complexo, o do Sr Josenias Galhofo. Totalmente lúcido e inteligente, sem indícios alucinógenos ou paranóicos. Isso no dia a dia, quando está de olhos abertos. Quando os fecha, em qualquer ocasião, começa a ter visões macabras. Essas visões não se dão durante o sono, seus sonhos são absolutamente normais e até suaves. Mas quando está desperto, em qualquer momento, se fechar os olhos… "É como se um terceiro olho se abrisse. Parece tão real que preciso abrir os olhos naturais para me certificar de que não é a realidade." E o que você vê? "O horror. O mais absoluto horror. Cenas tão pavorosas que não consigo ficar de olhos fechados por mais que alguns segundos." Precisamos entender e superar. Feche os olhos. Não importa o que veja, mantenha-os fechados. O que vê? "Santo Deus. É insano. É doente. Duas criaturas que… que…" Nunca mais voltou a abrir os olhos. Que o além seja um cenário mais piedoso.


14 março

Hora da ceia

 Hora da ceia


Muitas baratas por aqui. Gosto delas. São como eu. Criaturas da noite. Criaturas podres, que vivem em qualquer lugar, quanto mais imundo melhor. Deixo uma delas subir em minha mão. Começa a mordiscar meu dedo. É curioso como quase não sinto sugar meu sangue. Ela caminha até uma pequena ferida no meu dedo, um arranhão quando resvalei de mau jeito numa porta enferrujada. Sensação gostosa das mordiscadelas. É mais uma coceira que uma dor. Fico o mais imóvel possível por longos e saborosos segundos. Por quanto tempo ela irá se deleitar?

Num movimento rápido a pego com a outra mão. Seguro de forma delicada, para não esmagar a coitada. Ela movimenta as perninhas numa tentativa mecânica de escapar. É um bicho tão fofo e engraçadinho. Bonitinho e gostoso. Muito gostoso. Bem, amiguinha, você teve seu banquete. Agora é minha vez. Sutilmente a encosto em meus lábios. Primeiro, passo a língua sobre sua tenra cabecinha e sua carapaça, para sentir seu doce sabor. Delícia. Com a língua a empurro para dentro. Deixo-a se debater um pouco, chupo gostoso, como se fosse uma bala, sinto suas anteninhas roçarem em meu palato. Até que finalmente cravo vagarosamente meus dentes sobre ela, sinto seu doce e gosmento sangue escorrer por minha boca e minha garganta. Mastigo lentamente, mas a degustação acaba rápido demais, o inseto se esbaldou mais tempo comigo. Fica o gosto de quero mais. Procuro outros espécimes pelo chão, mas pela janela da cabine vejo o Josevâncio se aproximando. O Josevâncio é um dos moradores do prédio em que trabalho como porteiro noturno. Ele trabalha em um restaurante, sempre chega tarde. Sempre quando chega me pergunta qual a bizarrice do dia. É que mora muita gente excêntrica nesse prédio e frequentemente acontecem alguns tumultos, ou fatos inusitados. Como na semana passada, em que o Invertildo, do 403, correu pelado em volta do quarteirão pra pagar uma promessa. "Boa noite, Mazóglio. A turma aí aprontou hoje?" Na pequena TV da minha guarita, créditos passando, algum filme acabando. "Não, não", respondo, "tá bem tranquilo, tudo normal".


26 fevereiro

AAAHHrte !!! 23

 

AAAHHrte !!!
23



Nesta edição, iniciamos com um conto ilustrado pelo Marcelo Dola, de quem
também é a arte da capa. Este conto, aliás, teve uma construção inusitada.
Geralmente, em um conto ilustrado, é primeiro escrito o texto para então o
desenhista criar as artes. Mas nesse, eu e Dola fizemos o inverso. Primeiro, ele
bolou as ilustrações, e a partir delas, escrevi o texto. Seria então na verdade
ilustrações textificadas? Desenhos contificados? Bom, só sabemos que ficou uma
produção bem louca, como não poderia deixar de ser, tratando de uma junção de
dois loucos.
A seguir, uma resenha do livro CAVIDADE, obra póstuma de Alexandre Mendes.
Volto a ressaltar nesse espaço essa justa valorização da obra do Alexandre, que
pode ser adquirida com a Editora Merda Na Mão ou comigo mesmo. Tenho
exemplares disponíveis e aceito sempre a boa e velha TROCA por qualquer
produção criativa.
Depois, temos mais colaborações e aquela galeria de zines e acontecimentos
interessantes encontrados por aí.

 

AAAHHrte 23 pode ser baixado ou lido nos canais da Editora Merda Na Mão:

https://editoramerdanamao.blogspot.com/2021/02/aaahhrte-23-disponivel.html

 
As edições do AAAHHrte podem também ser vistas/baixadas através da ZINETECA
DIGITAL COLABORATIVA
(https://drive.google.com/folderview?id=1VOSRYuN_id71RG9ks00clzH9nSTGxyGE
)
ou pedidas no nyhyw@yahoo.com.br

 

 

 

 

 

 

 

16 fevereiro

Deus no banco dos réus IV


DEUS NO BANCO DOS RÉUS DO TRIBUNAL DA NOVA INQUISIÇÃO



IV



-Você puniu os egípcios por escravizarem os filhos de Israel.

-Sim.

-Mas até então a escravidão era prática habitual no mundo inteiro. Anteriormente, os próprios hebreus tiveram escravos. E continuaram tendo depois. Mas você não puniu mais ninguém por isso além dos egípcios.

-Os egípcios não fizeram minha vontade.

-Ah, sim, você jogou dez pragas sobre o Egito porque o Faraó não queria deixar os israelitas partirem.

-Foi necessário.

-Necessário? Ora, mas não é verdade que você disse a Moisés para pedir a Faraó que os deixassem ir, mas que você iria endurecer o coração de Faraó para que ele não permitisse?

-Sim.

-E a cada recusa de Faraó você despejava uma praga sobre o Egito.

-Sim.

-Mas era você que endurecia o coração de Faraó para que ele não concedesse a liberdade ao povo de Moisés.

-Bem... sim.

-Ou seja, você manipulou Faraó e Moisés apenas para extravasar seus desejos sádicos. E assim, você devastou aquela terra com rios que viraram sangue, matando inúmeros peixes. Peste sobre o rebanho, sobre cavalos, gado, ovelhas, jumentos, camelos, matando todos os pobres animais. Úlceras nas pessoas e animais de todo o Egito. Chuva de pedras, que destruiu tudo que havia no campo, pessoas, animais, plantas, árvores. Nuvens de gafanhotos, que devoraram tudo que havia restado da chuva de pedras. E culminou com uma praga que matou todos os primogênitos de todas as famílias egípcias, até mesmo o primogênito das sofridas escravas que moem a farinha, até mesmo o primogênito dos animais. Aquelas pragas mataram incontáveis pessoas e animais inocentes e destruíram o meio ambiente de forma incalculável. Quantas crianças inocentes morreram para atender sua sede genocida?

-Protesto, meritíssimo.

-Sem mais perguntas.

-Faremos um intervalo. Estão dispensados.





anteriores:



Deus no banco dos réus I


DEUS NO BANCO DOS RÉUS DO TRIBUNAL DA NOVA INQUISIÇÃO


I


Você disse "Haja luz", e houve luz, correto?

Correto.

Você viu que luz era boa.

Sim.

Se luz é boa e trevas ruim, por que permitiu a noite? Por que não criou a luz de forma intermitente, eterna?

Eu... não sei.

Você não sabe.




Deus no banco dos réus II


Deus no banco dos réus do Tribunal da Nova Inquisição


II


-Você culpou a serpente por ter enganado a mulher. Mas você criou todos os animais da Terra, correto?


-Sim, correto.


-Então você criou a serpente, não criou?


-Sim. Eu a criei.


[murmúrios de assombro].


-Ordem no tribunal.




Deus no banco dos réus III



DEUS NO BANCO DOS RÉUS DO TRIBUNAL DA NOVA INQUISIÇÃO


III


-Você condenou Caim por ter matado seu irmão Abel, certo?


-Sim.


-Você viu Caim matar Abel?


-Bem... não.


-Você viu o corpo de Abel?


-Não.


-Quando procurava Abel, você perguntou sobre seu paradeiro a Caim, correto?


-Isso mesmo.


-E o que ele respondeu?


-Que não sabia.


-E você simplesmente concluiu que ele matou seu irmão, sem nenhuma prova.


-Sim... mas... é claro que ele o matou.


-Isso é o que você diz. É a sua palavra contra a dele. Mas Caim foi sumariamente condenado, sem direito a defesa.


[silêncio].



14 fevereiro

Salvou


Achou estranho, o filho passara a carregar a bíblia pra todo lado.


-Meu filho, você está lendo a bíblia?


-É que meu próximo projeto vai ser uma sátira dos textos bíblicos em quadrinhos escatológicos.


-Ah, bom!


07 fevereiro

Venha


Olha pulso

Não tem mais relógio
Abre geladeira

Abarrotada de cervejas, todas com validade pra mais de ano

Ótimo, não precisa de mais nada

Que venha o apocalipse.